Sínodo Rio-Grandense (1886-1968)
Autor: Wilhelm Wachholz
RESUMÉ
A) Designações do Sínodo
Deutsch-Evangelische Synode der Provinz Rio Grande do Sul (1868-1875) [Sínodo Teuto-Evangélico da Província do Rio Grande do Sul] 1
Riograndenser Synode (1886-1901) [Sínodo Rio-Grandense] 2
Deutsche evangelische Kirche von Rio Grande do Sul (Riograndenser Synode) (1901- 1922) [Igreja Evangélica Alemã do Rio Grande do Sul (Sínodo Riograndense)] 3
“Rio Grandenser Synode” (“Deutsche evangelische Kirche von Rio Grande do Sul”) (1922-___) [“Sínodo Rio-Grandense” (“Igreja Evangélica Alemã do Rio Grande do Sul”)] 4
B) Periódicos Oficiais
Sonntagsblatt [Folha Dominical]
Synodalkalender (1922-????)[Almanaque Sinodal] 5
Amtliche Mitteilungen (1922-????) [Boletim Informativo] 6
Für eine stille Stunde [Para uma Hora Silenciosa] 7
Deutsche Evangelische Blätter für Brasilien (maio/1919-????] [Folhas Evangélicas Alemãs para o Brasil] 8
C) Estatísticas
1) Pastores
Em 4 de fevereiro de 1918: 47 (5 vacâncias) 9
Em 1929: 8510
Em 1941: 10011
2) De Comunidades Paróquias Famílias Pessoas
1912: 175
1918: 209 56
1923: 282 7212
1932 238 92 31.325 174.08613
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1.0 – SÍNODO TEUTO-EVANGÉLICO DA PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL
A grande maioria do protestantismo, sobretudo aquele que se estabeleceu nas primeiras décadas, se caracterizava pela “auto-organização” o que redundou no sentimento de independentismo: a igreja termina nos limites geográficos da comunidade15.
Este caráter começou a mudar com a vinda do P. George Hermann Borchard (1823-1891) a São Leopoldo/RS em 1864. Borchard havia atuado nos EUA entre 1854 e 1861 onde conheceu o funcionamento do Sínodo Geral Luterano na América do Norte. Ao Brasil, fora enviado pelo Conselho Superior Eclesiástico de Berlim (CSEB) a pedido das comunidades de Lomba Grande e São Leopoldo/RS, após o falecimento de seu P. August Wilhelm Klenze (1805-1861) 16.
Borchard já veio ao Brasil com o objetivo de fundar um sínodo. Uma primeira idéia de um trabalho mais estreito entre as comunidades, contudo, já havia surgido em 1856 em Porto Alegre quando a comunidade local, em sua assembléia, encarregou a diretoria para que convidasse todos os pastores evangélicos do RS para se unirem num consistório a ser criado na próxima Festa do Dia da Reforma17. A rigor, pode-se observar três modelos diferentes de organização o protestantismo teuto-evangélico:
1) O caminho da Igreja Estatal: este modelo foi proposto, de forma mais clara, pelas comunidades de São Leopoldo e Lomba Grande, tendo o P. Wilhelm Rotermund (1843-1924) à sua frente. Isso ocorreu em 1885. A idéia era criar um Consistórioconstituído por 3 pastores, 2 leigos e um representante do governo. A idéia era que este consistório averiguasse a capacitação de pastores, supervisionasse a escolha dos mesmos, a ordem das comunidades e o exercício do ministério por parte dos pastores podendo revogar inclusive as nomeações. Fica muito claro que se tratava de um consistório claramente para fazer frente aos “pastores não ordenados” 18.
2) Subordinação de Comunidades Avulsas CSEB: Várias comunidades, iniciando em 1843 com a comunidade do Rio de Janeiro, se filiaram ao CSEB durante o século XIX. Este caminho foi tomado de forma maciça quando a Lei Eclesiástica da Igreja Territorial da Prússia de 7 de maio de 1900 entrou em vigor, prevendo, para as comunidades filiadas, o envio de pastores por parte do CSEB e aposentadoria para os pastores19.
3) Conferências Pastorais (Fase Preliminar à Fundação de Sínodos):
3.1 – Já na primeira metade da década de 1860, ocorreram conferências pastorais por iniciativa dos pastores enviados por Basiléia. Estas cessarão quando, por volta de 1874, muitos missionários deixaram o Brasil20.
3.2 – No RS ocorreram conferências pastorais a partir de fevereiro de 1866 quando, outros pastores haviam sido enviados. Em 1868 estas conferências resultaram na fundação do Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul que, através de seu presidente Borchard, buscou filiação ao CSEB. O indeferimento pelo CSEB desgostou Borchard que retornou à Alemanha no início da década de 1870. O Sínodo foi presidido de 1870 a 1873 pelo P. Wilhelm Kleingünther (1837-1910) de Porto Alegre, e de 1873-1875 pelo P. Carl Friedrich Wegel (1830-1904), de São Leopoldo. Contudo, desde 1870, o sínodo não mais havia se reunido em assembléia. O mesmo deixaria de existir oficialmente em 187521.
2.0 – A FUNDAÇÃO DO SÍNODO RIO-GRANDENSE
A primeira tentativa de fundação de um sínodo havia fracassado. A extinção foi declarada em 1875, pouco depois da chegada do P. Dr. Wilhelm Rotermund enviado pelo Comitê para os Alemães Protestantes no Sul do Brasil (Sociedade Evangélica de Barmen). Após resistências em decorrência da iniciativa frustrada anteriormente e também à própria liderança de Rotermund22, somente em 20 de maio de 1886 foi fundado, em São Leopoldo/RS, o Sínodo Rio-Grandense com a presença de 7 pastores, 7 delegados leigos, representando 7 comunidades. Os pastores e as comunidades representadas eram: Rotermund (1843-1924), de São Leopoldo/RS, Conrad Schreiber (1854-1946), de São Sebastião do Caí/RS, Friedrich Hildebrand (1846-1932), de Santa Cruz do Sul/RS, Rudolf Dietschi (1849-1930), de Igrejinha/RS, Friedrich Pechmann (1851-1925), de Santa Maria/RS, Friedrich Brutschin (1844- 1919), de Dois Irmãos/RS e Ferdinand Häuser (1840-1891), de Teutônia/RS23.
3.0 – IGREJA EVANGÉLICA ALEMÃ DO RIO GRANDE DO SUL (SÍNODO RIOGRANDENSE)
3.1 – De 1900 até o fim da Primeira Guerra Mundial
A Lei Eclesiástica de 7 de maio de 1900 da Igreja Territorial da Prússia Antiga possibilitou a filiação de pastores e comunidades fora do “Reich” alemão ao CSEB, que, a rigor, tinha mais importância para os pastores do que para as comunidades. Isso porque concedia garantias para os pastores e suas famílias de um lugar numa comunidade em caso de retorno para a Alemanha, além de aposentadoria, pensão, invalidez. Por outro lado, a comunidade filiada tinha a garantia do envio de um pastor pelo CSEB. Este aspecto era questionado, pois se dizia que: 1) as comunidades não se deixariam “domar” pelo CSEB (observe-se que já esboçavam resistências ao próprio sínodo!) e, 2) se não recebessem um pastor do CSEB buscariam em outro lugar (missurianos) ou até “fabricariam” um para si24.
Certamente não é por acaso que, no ano seguinte a promulgação da Lei Eclesiástica de 7 de maio de 1900, o 15º Concílio do Sínodo Riograndense, reunido em Paraíso do Sul/RS em 1901, decidiu alterar seu nome para Igreja Evangélica Alemã do Rio Grande do Sul (Sínodo Riograndense) 25. Fundamentou-se a inclusão do termo “alemã” assim:
Era preciso que ao nome Igreja Evangélica do RS fosse anteposta ainda a palavra “alemã”. Em primeiro lugar, para a distinção (...) Depois, porém, se destaca com razão o trabalho de nossa Igreja em sentido nacional. Queremos ser e permanecer alemães até a medula (...) Ninguém precisa preocupar-se. Não estamos a serviço de qualquer partido ou de um organismo estatal. Nosso Rei que nos envia está acima disso. E o germanismo, como diz Lagarde, não está localizado no sangue, e, sim, na mente (...) Pois todos nós amamos nossa nova pátria, nosso belo Brasil. (...) Mas se quisermos ser elementos úteis, temos que permanecer o que somos26.
O concílio em Paraíso também decidiu subdividir o sínodo em dois “distritos”: Oeste e Leste. Em 1906 foi criado ainda um terceiro distrito: Sul. Neste ano, a eleição do presidente do Distrito Leste, o P. Friedrich Wilhelm Karl Wiehe (1866-1936), como presidente geral do sínodo não foi aceita pelo P. Friedrich Heinrich Klasing (1866-1930), presidente do Distrito Oeste. A crise se agravou de tal forma que, depois de reconhecido o perigo da fragmentação, em 1909, elegeu-se novamente uma diretoria geral sob a presidência do P. Rotermund de 66 anos de idade. A reconciliação ocorreu por intermédio do representante do CSEB, P. Martin Braunschweig, enviado para o Brasil em 1907/1908, mas especialmente por intermédio do representante que lhe sucedeu, Wilhelm Zoellner. Reagrupado, o Sínodo ainda veria surgir um quarto distrito em 1913: Norte27. Na década de 1920, o Sínodo foi subdivido em 10 distritos sinodais28.
A ruptura das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha (14/04/1917) suscitou pessoas a atacarem o patrimônio alemão e teuto-brasileiro, especialmente em Porto Alegre. Esta situação se agravaria ainda mais com a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha (20/10/1917). Com isso, em fins de janeiro de 1918, a maioria das escolas alemãs no RS haviam sido fechadas. Em 17 de novembro de 1917, a língua alemã foi proibida para prédicas, cultos e fala pública, sendo novamente permitida a partir de 11 de abril de 191829. Mas somente em dezembro de 1918 e nos primeiros meses de 1919, os cultos em língua alemã passaram a serem oficiados com regularidade novamente30. O fortalecimento do Sínodo pode ser percebido no fato de ter custeado a vinda de 38 pastores da Alemanha entre 1920 e 192331.
A guerra também teve como conseqüência a criação, em 1918, de uma caixa de pensão sinodal para pastores. A partir de maio de 1919 surgiam as Deutsche Evangelische Blätter für Brasilien [Folhas Evangélicas Alemãs para o Brasil] consideradas por Braunschweig, ao lado da pressão externa (conseqüências da guerra) elemento de aproximação dos três sínodos (Sínodo Riograndense, Sínodo do Brasil Central e Associação Evangélicas de Comunidades). Em 1922 o Sínodo adotou uma nova constituição com significativas alterações32.
3.2 – A Filiação à Federação Eclesiástica Evangélica Alemã e o Germanismo
A falta de envio de pastores da Alemanha em conseqüência da Primeira Guerra Mundial trouxe para o Sínodo a reflexão sobre a formação de pastores no próprio país. Somente em 1921, por iniciativa do P. Hermann Gottlieb Dohms (1887-1956), surgiria em Cachoeira do Sul um curso preparatório a partir do qual surgiria o Pré-Seminário do Sínodo Riograndense33. Isso, no entanto, ainda não significaria a autonomia do Sínodo, pois, enquanto, de um lado, surgiram vozes em favor de uma Igreja independente da Igreja-mãe alemã, de outro lado, a idéia independentista era atacada sob argumento de falta de consciência alemã. Em 1924, após a aprovação de uma lei alemã sobre diáspora que permitia a filiação de corporações eclesiástica à Federação Eclesiástica Evangélica Alemã (FEEA) (Deutscher Evangelischer Kirchenbund) e depois da restauração do cargo de representante permanente (decidido pelo CSEB em 1910 e implementado em 191134) em 1924 (um dos argumentos era a melhoria do fluxo de informações com o Brasil) concretizado através do envio o prepósito Erwin Hübbe, em 1925, que foi financiado durante dois anos por comerciantes. Hübbe se empenhou pela filiação do Sínodo à FEEA o que foi aprovado em 1928 e entrou em vigor em 1° de janeiro de 1929. Com a filiação – a exemplo do Sínodo do Brasil Central que também se filiou como corporação eclesiástica! – o Sínodo passou à dependência direta do Departamento do Exterior, criado em 1934, embora entendia não se tratar de uma dependência unilateral, mas como um apoio para que o Sínodo pudesse tornar-se efetivamente Igreja. A filiação também, mais uma vez, adiou a idéia de autonomia. Havia uma minoria dos pastores que, no entanto, constituía a maioria na diretoria sinodal, que desejava a total autonomia do Sínodo em relação a Igreja-mãe. De outro lado, a maior parte dos pastores que, no entanto, assumia uma postura mais passiva, desejava relações mais estreitas com a Alemanha. O primeiro grupo desejava uma associação própria de pastores, além da liberação em tempo integral do pastor presidente para suas respectivas funções35.
A filiação à FEEA “sepultou” a idéia de autonomia e estreitou ainda mais os laços e a subordinação à Igreja-mãe. Contudo, esta filiação se tornaria a mais perigosa de todas as anteriores, pois representou
um divisor entre duas épocas para a história dos sínodos brasileiros. Pela vitória do nacional-socialismo no Reich Alemão, com sua perversão da idéia etnista, e a cooptação da Igreja, a estreita ligação administrativa entre Igreja-Mãe e sínodos, conjuraria problemas e ônus jamais imaginados nessa nova época para as Igrejas anexadas. 36
No final da década de 1920, já surgiram idéias etnistas por parte dos pastores formados no seminário para diáspora de Stettin-Kückenmühle que também desejavam assumir da direção do sínodo. Tratava-se dos pastores nacional-socialistas que, sob liderança do P. Knäpper, buscaram aumentar suas influências na diretoria sinodal. O prepósito Gottlieb Funcke fortaleceu os pastores nacional-socialistas ao apoiar em 1934 a nomeação do P. Erich Knäpper como vigário sinodal. Com isso, Knäpper se tornou responsável pela Missão Interna e todo o trabalho jornalístico ficou sob influência nacional-socialista. Aliás, Knäpper seria ainda nomeado “membro interino” da diretoria sinodal. Em geral, os pastores nacional-socialistas eram os enviados da Alemanha e os “sinodais”, teuto-brasileiros37. Em fins de 1933 e início de 1934, dois terços dos pastores do Sínodo eram nacional-socialistas e, como tais, membros do partido nazista. De outro lado, a partir de 1935, se formaria um grupo de pastores identificados com a Igreja Confessante. O presidente P. Dohms procurou evitar a transferências entre nacional-socialistas e confessantes (Kirchenkampft) da Alemanha para o RS, mas não mais conseguiu evitá-lo quando o seminário que formava pastores para a diáspora (Stettin-Kückenmühle) aderiu à Igreja Confessante38.
Depois que os jovens brasileiros e alemães do seminário para a diáspora – transferido de Stettin-Kückenmühle para o castelo de Ilsenburg, no Harz, em 1930 – “\’aderiram abertamente à Igreja Confessante por causa da fé e da consciência, e que esperam um chamado correspondente do além-mar\’” 39, o Sínodo foi colocado diante da decisão de que caminho seguiria. O P. Gustav Reusch havia recebido a recomendação da Igreja Confessante para fundar no Brasil uma Comissão da Igreja Confessante e um Conselho de Irmãos. O bispo Theodor Heckel, por sua vez, manifestou a esperança de que isso não viesse a acontecer. Reusch, contudo, fundou uma comissão teológica em 15 de janeiro de 1937 que, ao que parece, se reuniu pela última vez em maio de 1937. Reusch, a pedido de Dohms, encerrou completamente as atividades do Grupo de Estudos em agosto de 193840.
De outro lado, surgira no Sínodo um grupo radical de teuto-cristãos que tinha contatos com os teuto-cristãos da Turíngia. Tratava-se dos pastores Rudolf Grabs (Boa Vista do Erechim), Otto Kreutzer (Erechim) e Hanns Passmann (Feliz). O presidente do Sínodo, Dohms, via este grupo como muito mais perigoso do que o grupo de Reusch. Enquanto aquele grupo deveria abandonar o Brasil, este deveria somente silenciar, segundo ele41. Conclusivamente, Prien constata que “em geral, pode-se constatar que o Kirchenkampf foi apresentado em termos bastante ingênuos e que a boa-fé para com o governo nacional-socialista era quase ilimitada.” 42
Em meio a tudo isso, o sínodo se viu envolvido da discussão da criação de cargo em tempo integrar para presidente. A partir de 1933, o prepósito Funcke reivindicou para si o cargo de líder espiritual (Führer em analogia a Hitler, no intuito de substituir o modelo de parlamentarismo democrático43) com a idéia de que o presidente do sínodo fosse responsável somente pela parte prática da administração. Funcke chegou até mesmo a propor seriamente assumir o cargo de presidente, tendo abaixo de si um “pastor sinodal” ou “comissário sinodal”. Fica, portanto, claro, que Funcke compactuava com os pastores nacional-socialistas. De outro lado, desde 1933, Funcke vinha insistindo junto aos pastores nacional-socialistas Knäpper e seus amigos que não se candidatassem ao cargo, mas que apoiassem o P. Dohms. Dohms seria eleito em 1935 como primeiro presidente de tempo exclusivo do sínodo que, embora não nacional-socialista, objetivou a preservação da Volkskirche44 alemã no Brasil. Junto com ele, foram eleitos o confessante P. Gustav Reusch como vice-presidente e o nacional-socialista P. Knäpper como tesoureiro e pastor sinodal45.
Antes disso, em 1930, criou-se a constrangedora situação para a eleição sinodal entre duas alternativas: o P. Friedrich Buschtöns, que havia chegado ao Brasil em 1928 e contava com o apoio da maioria dos pastores jovens, formados em Kückenmühle, e o “atual” presidente Theophil Dietschi. Em 1932, Dietschi seria reeleito e Immanuel Haetinger assumiria a vice-presidência46.
O Concílio Sinodal de 1934 aprovaria o “Regulamento das Bandeiras” segundo o qual ao lado da bandeira nacional, do Rio Grande do Sul e da Igreja, poderiam ser hasteadas as duas bandeiras do Reich, a saber, a preto-branco-vermelha e a suástica47.
O Sínodo Rio-Grandense havia ficado satisfeito com sua filiação à FEEA da qual passou a depender de apoio financeiro. Aliás, através desta filiação, passou a ser uma Igreja-membro da Igreja Evangélica Alemã, constituída em 1933 e teve de reconhecer como autoridade suas instâncias, particularmente o Departamento do Exterior, criado em 1934 e dirigido pelo bispo Heckel. Por este motivo, devido à cooptação de Estado e Igreja sob o governo nacional-socialista de Hitler, o Sínodo não poderia se relacionar com a Igreja Confessante nem que desejasse sob pena de perder a ajuda financeira da Igreja Evangélica Alemã48. Prien, conclusivamente afirma:
O dilema do entrelaçamento de Evangelho e etnismo [levou a que] [...] os sínodos de imigração consideravam o trabalho etnista como elemento irrenunciável de seu trabalho. [...]
Com isso, o Evangelho estava amarrado não apenas ao etnismo, e, sim, adicionalmente, à ideologia nacional-socialista [...]. Como aqui a Igreja ainda era considerada aliada do PTNSA [NSDAP49], certamente a maioria dos pastores sequer entendeu o dilema nem percebeu que a Igreja era considerada pelo Partido tão somente como aliada tática. [...] Portanto, onde teria sido necessária uma discussão teológica, aceitava-se, com prazer, a ajuda do Partido no espírito do antiamericanismo étnico-alemão. 50
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4.0 – A CONFESSIONALIDADE
Em fevereiro de 1866, Borchard reuniu os pastores Johann Peter Christian Haesbert51, Wilhelm Kleingünther52, Hermann Jacob Bergfried53 e Christian Smidt54 para uma conferência. Nesta ocasião, quando se discutiu sobre a orientação confessional, todos concordaram com adoção da Confissão de Augsburgo, mas alguns a desejavam na versão invariata (1530)e outros na versão variata (1540). Este dado parece fundamental, pois deixa claro que havia diferenças confessionais (luteranos e reformados). Indica também que, no contexto do protestantismo de imigração rio-grandense, se entendia as duas versões relevantes em suas diferenças55.
Na constituição do Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul (1868), após constatar-se dois anos antes o desejo de alguns pastores pela versão variata e outros pela invariata da Confessio Augustana, estabeleceu-se simplesmente o seguinte:
Capítulo I – Do Sínodo
§ 1 O Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul confessa-se, com base única nas Sagradas Escrituras, aos principais escritos confessionais da Reforma, em especial da Confissão de Augsburgo.
§ 2 O Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul se vincula em doutrina, culto e disciplina à Igreja Evangélica da Alemanha, em especial da Prússia, e reconhece o Conselho Superior Eclesiástico de Berlim como sendo sua instância eclesiástica superior.” 56
Embora este sínodo viesse encerrar suas atividades, a rigor, já em 1870, sendo declarado extinto em 1875, já se tem aqui importantes dados sobre a orientação confessional. Aliás, chama a atenção que, talvez para evitar um conflito confessional maior, não se mencionou qual das versões da Confessio Augustana deveria ser normativa (observe discussão havida em 1866).
Por ocasião da Assembléia Pré-Sinodal para constituição do Sínodo Rio-Grandense, em 1886, a questão sobre confessionalidade foi novamente discutida. Enquanto alguns membros da assembléia desejavam a formulação “comunidades evangélicas” (Art. 1º), outros desejavam que se definisse o sínodo como soma de “comunidades evangélico-unidas”. O P. Rotermund engajou-se para que esta formulação não fosse aceita justamente para não afugentar aquelas comunidades que se entendiam sob bases mais luteranas ou reformadas. Segundo ele, sob “evangélico” desejava-se abrigar todas as comunidades sob um mesmo “teto” 57.
Na mesma ocasião, o P. Johann Friedrich Pechmann (1851-1925) defendeu que fosse suprimida a formulação do anteprojeto “especialmente à Confissão de Augsburgo” sob a alegação de que as comunidades não a reconheciam. O P. Johannes Friedrich Brutschin (1844-1919) engajou-se pela manutenção da formulação, alegando que havia necessidade de clareza confessional especialmente frente às “seitas”. Finalmente, embora o próprio Rotermund fosse favorável à manutenção da formulação Confessio Augustana, juntamente com outros, entendeu que ainda não havia maturidade para decidir sobre questões confessionais e que o objetivo principal do sínodo deveria ser reunir o máximo possível de comunidades. Assim, a Augustana não foi incluída nos estatutos sinodais58.
Dois aspectos chamam a atenção neste contexto: 1) Comparado com os estatutos sinodais de 1868, onde se faz menção à Confessio Augustana, poder-se-ia dizer que se trata de “um passo atrás” no que diz respeito à orientação confessional. 2) Diferentemente do que ocorrera em 1868, parece entender-se, em 1886, que a Confessio Augustana é um escrito confessional luterano, pois não se cogita, como em 1868, a possibilidade entre as versões invariata e variata. Ou então entendia-se que o simples fato de mencioná-la suscitasse divergências irreconciliáveis.
No Concílio Sinodal de 1888, novamente a discussão confessional foi pautada porque havia comunidades que adotaram o catecismo luterano e outras o reformado o que causava confusão particularmente no que diz respeito à contagem dos mandamentos59.
A década de 1890, as discussões confessionais foram profundamente ricas no Sínodo Rio-Grandense. Estas discussões, por vezes acirradas, resultaram, por fim, no início do trabalho da Caixa de Deus Luterana (Alemanha), em Santa Catarina (1897), e do Sínodo de Missúri (EUA), no Rio Grande do Sul (1900). Nesta década, situa-se uma afirmação de Rotermund (1894) muito significativa:
Agora parece que os luteranos da Alemanha estão se mexendo. Se eles tivessem feito isso antes, como eu havia solicitado [!]. Agora só pode gerar discórdia. Eu ajudei a igreja luterana em todo silêncio e calma e até mesmo motivei pastores reformados [que vieram] da Suíça a introduzirem a ordem de culto luterana bem como catecismos luteranos. Desta forma eu poderia ter esperado que permanecêssemos unificados e com isso chegássemos a ter uma igreja luterana. Mas, se agora os luteranos quiserem iniciar em contraposição ao que existe, ocorrerá uma ruptura. 60
Esta postura de Rotermund é bastante elucidativa e revela o seu desejo de, numa realidade confessional heterogênea, paulatinamente instituir clareza confessional de caráter luterano. Por outro lado, revela também que, pelo fato de se tratar de comunidades e pastores confessionalmente heterogêneos, não se poderia simplesmente partir para um confessionalismo rígido sem conseqüências conflitivas.
No contexto do Sínodo Riograndense (Igreja Evangélica Alemã do Rio Grande do Sul – Sínodo Riograndense!), novamente estabeleceu-se uma orientação confessional mais clara em 1921/192261. O artigo 2 da Constituição dizia:
O Sínodo confessa-se, com base na Sagrada Escritura, aos símbolos da Reforma de Martim Lutero, especialmente à Confissão de Augsburgo e ao Catecismo Menor de Lutero. Liga-se na ordem de culto, doutrina e disciplina à Igreja Evangélica da Alemanha. 62
Comparado com a constituição sinodal de 1886 de fato estabelece-se uma orientação confessional muito mais clara. Comparado com a Constituição de 1868, no entanto, a menção à Confissão de Augsburgo não é novidade. Por outro lado, à menção a Lutero é, sem dúvida, inédita.
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5.0 – PRESIDENTES E VICE-PRESIDENTES
P. Dr. Hermann Wilhelm Rotermund maio/1886-abril/1893
Johann[es] Friedrich Brutschin 1886-1890
P. Dr. Hermann Wilhelm Rotermund 1890-1893
Johann Friedrich Pechmann 1890-1893
P. Johann Friedrich Pechmann 1893-1897
Conrad Heinrich Schreiber 1894-1897
P. Johann Friedrich Pechmann 1897-1900
P. Paul Wilhelm Ludwig Sudhaus 1897-1900
P. Johann Friedrich Pechmann 1900-1901
P. Johannes Rudolf Dietschi 1900-1901
P. Johannes Rudolf Dietschi 1901-1903
Friedrich Heinrich Klasing 1901-1903
P. Johannes Rudolf Dietschi 1903-1906
Friedrich Heinrich Klasing 1903-1906
P. Wilhelm Wiehe 1906-1909
Friedrich Heinrich Klasing 1906-1909
P. Dr. Wilhelm Rotermund 1909-1910
P. Lic. Gottfried Thieme 1909-1910
P. Dr. Wilhelm Rotermund 1910-1913
P. Ernst Theodor Lechler 1910-1913
P. Dr. Wilhelm Rotermund 1913-1916
Johann Friedrich Pechmann 1913-1916
P. Dr. Wilhelm Rotermund 1916-1919
Johann Friedrich Pechmann 1916-1919
P. E. Karl Gottschald 1919-1922
P. Wilhelm Richard Kreutzer 1919-1922
P. Theophil Dietschi 1922-1925
P. Wilhelm Richard Kreutzer 1922-1925
P. Theophil Dietschi 1925-1929
P. Immanuel Haetinger 1925-1929
P. Theophil Dietschi 1929-1932
P. Friedrich Buschtöns 1929-1932
P. Theophil Dietschi 1932-1935
P. Immanuel Haetinger 1932-1935
P. Hermann Dohms63 1935-1946
P. Gustav Reusch 1936-1946
P. Hermann Dohms 1946-1949
P. Ernesto Th. Schlieper 1946-1949
P. Hermann Dohms 1949-1952
P. Ernesto Th. Schlieper 1949-1952
P. Hermann Dohms 1952-1955
P. Ernesto Th. Schlieper 1952-1955
P. Dr. Hermann Dohms 1955-1956
P. Ernesto Th. Schlieper 1955
P. Karl Gottschald 1956
P. Ernesto Th. Schlieper 1956
P. Karl Gottschald 1957-1958
P. Nöllenburg/P. Saenger 1957-1958
P. Karl Gottschald 1958-1961
P. Saenger/P. Burghardt 1958-196164
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BIBLIOGRAFIA
FISCHER, Joachim. A Luta Contra os Pastores-Colonos no Rio Grande do Sul no Século XIX In: ______ (org.). Ensaios Luteranos; dos primórdios aos tempos atuais do luteranismo no Brasil. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 33-52. (História da Igreja – IECLB, 3)
FISCHER, Joachim. Breve História da Faculdade de Teologia. In: HOCH, Lothar (ed.) Formação Teológica em Terras Brasileiras. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 18-32.
[FISCHER, Joachim]. Dados Biográficos. In: ______. (ed.). Testemunho Evangélico na América Latina; palestras e prédicas. São Leopoldo: Sinodal, 1974. p. 7-11.
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