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IECLB História Acervo histórico da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Artigo

Quatro razões para a colonização do Alto Vale do Itajaí

Prof. Dr. Wilhelm Wachholz

Resumo: A rosto cultural e religioso do Brasil-Império alterou profundamente a partir do século XIX com a vinda de imigrantes europeus. Quatro razões podem ser constatadas para a colonização do Alto Vale do Itajaí (Santa Catarina): eliminação de nações indígenas, valorização fundiária e construção e conservação de estradas.

QUATRO RAZÕES PARA A COLONIZAÇÃO DO ALTO VALE DO ITAJAÍ

Até o início do século XIX, o Brasil permaneceu praticamente fechado ao elemento não lusitano e protestante. A rigor, somente os huguenotes calvinistas franceses (1555-1560), na Ilha de Guanabarra, no Rio de Janeiro, comandados pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon, e os holandeses calvinistas (1624/1630-1654) no Nordeste do Brasil (região que se estendia do Maranhão até o Rio São Francisco), liderados Jean Maurice de Nassau-Siegen ameaçaram a hegemonia luso-católica durante o período do Brasil-Colônia. Franceses e holandeses representaram uma concorrência na corrida pela hegemonia comercial no Atlântico. Por isso, era fundamental não somente manter ambos concorrentes fora do Brasil senão que também fomentar a uniformização cultural e religiosa dos povos. Isso apontava, de um lado, para a necessidade de manter protestantes fora do Brasil-Colônia e, de outro, “reduzir” indígenas – note-se que as reduções indígenas visavam reduzir as populações ao que não eram, ou seja, “brancos”! – e enquadrar as populações negras trazidas do continente africano ao sistema colonial – o batismo, único sacramento ao qual os negros tinham acesso, era sinal não de libertação, mas de escravidão, de enquadramento ao sistema produtivo-mercantil.

Esta é a realidade do Brasil até o início do século XIX. Por pressão da Inglaterra, o Brasil declara independência de Portugal (1822). A mesma Inglaterra, que estava em busca de mercado para seus produtos industrializados – ela se tornara uma potência industrial no século XVIII! – também pretendia ver concretizada no Brasil a criação de uma classe consumidora destes seus produtos. Como, a rigor, somente havia duas classes sociais no Brasil – alta e baixa, sendo aquela pouco numerosa e, portanto, potencialmente pouco consumidora –, era necessário criar uma classe intermediária, isto é, a classe média. Eis encontramos nisso uma primeira razão para a colonização do Brasil, também do Alto Vale do Itajaí.

Além desta razão, havia outras razões para a colonização do Brasil por populações européias. Três destas razões talvez não se relacionem diretamente com a colonização do Alto Vale do Itajaí:

1) Branqueamento da raça: Entre 1807 e 1810 ocorreram diversos levantes de negros na Bahia, o que assustou as elites baianas, pois na lembrança ainda estava a insurreição de escravos negros no Haiti (1804) que resultou na liquidação da população branca local. Em 1825, a França inclusive foi obrigada a reconhecer a independência do Haiti negro. Ante ao crescimento demográfico “perigoso” dos negros no Brasil, coube ao colono branco europeu gerar família numerosa e, assim, acabar por contribuir com o branqueamento da raça.

2) Segurança Nacional: Muitos dos primeiros núcleos coloniais foram localizados em territórios não totalmente seguros ainda. É o caso do Rio Grande do Sul, que sempre foi área de litígio com a coroa espanhola. A baixa densidade demográfica – as populações estavam ligadas à criação de gado em regiões de vasta amplitude – exigia populações para garantir a posse. Neste caso, os imigrantes, ao eliminarem os indígenas, mantinham caminho livre para que os militares pudessem trafegar livremente para defenderem as fronteiras. Por outro lado, os núcleos de imigrantes eram responsáveis pela produção de alimentos para as tropas militares.

3) Mão-de-Obra Barata: No Estado de São Paulo, os latifundiários procuraram atrair os imigrantes como forma de mão-de-obra barata. Assim, a pequena propriedade servia de apoio ao latifúndio. O imigrante passava por um “estágio”, trabalhando no latifúndio, antes de receber sua própria terra. Para tal, o fazendeiro de café loteava as terras impróprias para o café, próximas à fazenda. A população ali assentada, para melhorar seus rendimentos, oferecia seu trabalho em favor da fazenda.

Se as três razões acima não dizem diretamente respeito à colonização do Alto Vale do Itajaí, três outras razões, contudo, podem ser relacionadas à história local, a saber, a eliminação de nações indígenas, a valorização fundiária e a construção e conservação de estradas. Façamos uma breve reflexão sobre estas razões com fatos ocorridos na região do Alto Vale.

1) Eliminação de Nações Indígenas: Pode-se perceber que, desde 1825, a localização de imigrantes em solo brasileiro foi ocorrendo cada vez mais em áreas povoadas por indígenas que acabavam sendo eliminadas. Estes foram eliminados especialmente ao longo das estradas como forma de garantir “segurança diante dos selvagens”. Isso ocorreu na forma de “guerra ofensiva” ou através das roupas infectadas com varíola presenteadas para cobrir a “vergonha” indígena. Um interessante exemplo sobre a realidade do Alto Vale do Itajaí quando dos inícios da colonização é o seguinte relato:

“Há alguns decênios os indígenas, denominados bugres foram gradativamente expulsos pela colonização crescente. Ainda representam, porem, como demonstram os acontecimentos do ano de 1910, ainda séria ameaça aos colonos e viajantes. Há ainda vestígios dos tempos pagãos dos selvicolas aqui em Rio do Sul, como a duas rotundas elevadas situadas no jardim e na plantação do comerciante Rodolfo Odebrecht. Trata-se provavelmente de locais de dança ou sacrifícios” (transcrição conforme o original!).

Outro relato caracteriza semelhantemente a relação com as populações indígenas na região de Rio do Sul: “A atitude hostil dos indígenas implicou em grandes dificuldades para a instalação da mesma [linha telegráfica ligando Blumenau a Lages].” Diante desta imagem que se tinha dos indígenas era necessário resistir “à perfídia dos bugres”. Aos indígenas também foram atribuídos os obstáculos do desenvolvimento da colônia: “A nova colônia crescia com lentidão, pois as notícias desfavoráveis acerca dos indígenas alcançavam os núcleos mais antigos”. Portanto, entendia-se que era necessário eliminar o “intruso”, neste caso, o “índio”.

2) Valorização Fundiária: Em âmbito geral, no Brasil, procurou-se assentar os imigrantes em pequenas propriedades, próximas às grandes propriedades, para que estas fossem valorizadas. Por isso, pode-se perceber que a maioria das pequenas propriedades se localiza ou nas encostas da serra, ou em áreas sujeitas à inundação, ou ainda em terras inférteis. Isso pode ser observado também na geografia do Alto Vale do Itajaí. Trata-se de uma região acidentada que, por outro lado, se localiza entre a região litorânea e o planalto, onde as terras, por serem planas, eram mais interessantes e cobiçadas. A colonização das áreas ao entorno das terras da serra as valorizaria ainda mais, sobretudo, se os colonos auxiliassem na construção e conservação das estradas.

3) Construção e Conservação de Estradas: Muitas vezes, os núcleos coloniais foram localizados no final de uma estrada. Exemplos para isso são as atuais cidades de Teófilo Otoni e Juiz de Fora/MG. Os imigrantes eram contratados para construírem a estrada com a promessa de receberem terras ao longo da estrada. Os núcleos criados ao longo destas estradas visavam à conservação das mesmas pelos próprios colonos. A colonização do Alto Vale do Itajaí, também pode ser analisada sob esta ótica. Suas terras não se localizam no final de uma estrada, mas serviram de pontos de ligação entre o litoral e as terras cobiçadas do planalto. Através do Vale se procurou ligar o planalto com a região litorânea. Em 1867, por ordem do colonizador Dr. Hermann Blumenau, sob direção do engenheiro alemão Emil Odebrecht, fora aberta a primeira picada, à margem da qual seria posteriormente (1893-1897) construída a linha telegráfica, ligando Blumenau à Lages. Percebe-se que ao longo desta picada e linha telegráfica foram assentados colonos que auxiliaram na “segurança” e “preservação” das mesmas. Colonizar o Alto Vale, portanto, significou contar com o apoio dos colonos não somente na construção da estrada, mas também na sua conservação bem como na segurança aos passantes ante o “perigo” das populações indígenas remanescentes.

Valeria à pena conversar com pessoas idosas que ainda guardam lembranças e memórias de fatos que possam exemplificar estas razões e, quem sabe, oferecer outras razões para a colonização do Alto Vale do Itajaí!